28.5.23

TIME FLIES

nove anos depois do texto que inaugura o blog
eu continuo raciocinando prometeu
desvendando (ou tentando)
o que o fez roubar o fogo

depois de tanta bobagem escrita
tantos textos mal-lidos
reinterpretados e mixados em mim
-- como se nada fossem --
passo a entender alguma coisa

a idade nos faz perder o lirismo
e passamos a escrever bilhetes métricos
desabafos nunca ditos
indiretas escandalosas
e conversas vazadas

apesar de toda essa secura
eu insisto nesse vício-poesia
debulhando teclas
curvando a coluna
e fazendo todo o esforço do mundo
para fazer sentido

isso a inteligência artificial nunca saberá:
entender os meus problemas
comover-se com eles
ou mesmo funcionar sem energia

(esse fogo será meu eternamente
mas isso não faz tanto sentido)

hoje entendi meu professor alemão:
mais difícil do que escrever poesia
é não escrever

3.2.17

ADOTIVO

aos parentes que conheço
e amo a partir de conhecê-los

tudo me pertence
adoto tudo o que vejo
quando me percebo
já estou mandando beijo

ah!, meu coração
pare de ser tão bobo
mas logo não dá outra
tem amor? logo me afobo

cato pai e mãe e filho
cato tudo e mais um pouco
cato tio e cato avô
já adoto como louco

meu parente, um dia estranho
hoje é osso do meu osso
é tão carne da minha carne
que em casa é alvoroço

"quem meu pai? quem minha mãe?"
já dizia o mestre zen
todo mundo é meu parente
só me basta querer bem

laço em sangue é relação
obrigada pela vida
já o laço adotivo
é maior por vocação:
é a lei do coração

28.12.16

VEJAM SÓ VOCÊS

para qualquer poeta
os escritos dos outros nada valem:

a única coisa que presta
é seu próprio egoísmo
seu próprio sentimento
sua própria versão dos fatos

os outros poetas?
que vendam livretos a dois e cinquenta
na feira do rolo

graças a deus não sou poeta:
não tenho apetite
para tanto nojinho
e tanta nojeira

17.12.16

S.M.

toda perversidade
um dia
há de ser perdoada
ou esquecida

tem espaço para tudo
neste quarto de tranqueiras
chamado coração

24.6.16

CANINOS

o olhar de um cachorro
não mira o vazio

antes olha nossas falhas
nossos pêsames
nossas dores de não conseguir
ser eternos


*

em cada pálpebra inocente
existe a fúria canina
que ladra, mas não morde:

se ele que é tão cão
é tão humano
e a gente? por que não pode?

20.6.16

DA PORNOGRAFIA

1. da pornografia do corpo
diante da nudez do corpo
resta a alma:
a única que pode realmente ser despida
com o máximo de decência

a lascívia que corrói a carne
está fadada a destruição:
o mesmo nojo de desejar um corpo putrefato
me assusta
quando desejo um corpo vivo

"é sempre a mesma história, meu querido:
um dia você deixa esta vida;
um dia você põe tudo isso para lá;
um dia você vai ver que isto não é o que você procura;
um dia você vai cair em si e perceber
que isto não é o que você estava procurando" 

mal sabem eles
que a vida vai além de todas estas categorias:
que tudo isto é muito forte, e que
mal dá tempo de viver uma vida só

mal sabem eles que escrevo poemas em gotas
- cada palavra equivale a uma dose de veneno -
e que meus pensamentos milimétricos não são masturbação,
ao contrário:
são afagos no rosto de meu vazio

2. da pornografia da alma
a alma nua é tão absurda
quanto um poema acabado
de forma 
abrupta 

31.1.16

AUSÊNCIAS

sentes o gosto?
é a paixão que ainda não veio.
é a carta que ainda não veio.
é o alguém que ainda não veio.

teus amigos dizem, liquefeitos,
que a saudade dura apenas um segundo
e que não deves te importar com estas coisas.

para.
olha um canto.
perceba neste canto a tua imagem,
como se dela desprendesse a tua essência.
depois se volte a recolher teus próprios cantos.


* * *

sentes o tato?
é a conta que ainda não veio.
é a mãe que ainda não veio.
é a esperança que ainda não veio.

todo aquele que vence a saudade
se condena em não lembrar as coisas.
a saudade é uma ausência em sangue.

para.
olha teu lado.
perceba nesta gente os teus irmãos,
como se deles surgisse tua identidade.
e então encontras tua própria felicidade.

TROVAS DO AMOR CRESCENTE

dos meus sonhos escondidos
tiro um deles pra sonhar;
é um sonho colorido
tão bom de se imaginar.

é um sonho tão dourado
que ninguém vai perceber;
o seu brilho iluminado
logo vai nos envolver.

tiro o sonho da gaveta
e começo a construir;
nosso sol será um cometa
que só vai nos divertir.

terá fruta bem madura
e nas plantas muita cor;
terá um livro capa-dura
e não haverá rancor.

se o violão não fala
minhas mãos não vão calar;
os meus braços como em gala
te convidam pra dançar.

nossa casa na floresta
tem seresta e entardecer;
tem a madrugada: festa
que vem ao amanhecer.

quando chega o nosso sono
com a vontade de dormir;
a inocência do desejo
corre para se despir.

este sonho encantado
longe de todo terror;
é um refúgio ensolarado
onde quer que ele for.

dos meus sonhos escondidos
tiro um deles pra sonhar;
os meus braços como em gala
te convidam pra dançar...

20.9.15

O SER COITADO

o ser coitado nunca abandonou o que lhe era estranho
desajustado
fora do comum

o ser coitado aprendeu a todos dias ir além do seu limite
corrigindo
catando migalhas
catando
calando
calando

o ser coitado sempre admirou de olhar no espelho
o homem que sonhou ser
mas quando abaixava os olhos via
refugo

o triste tadinho que procurava refúgio
hoje cresceu, tem barba e bigode:
mas nos simples jogos da vida
quando pessoas cruzam-se lá e cá
ele chora

e quando chora, como geme!
como desterra seu grito úmido
infantil
instintivo e bestial
como se quisesse
colo
carícia
terra & água
vida enfim

olho em seus olhos. danado
daquele que ousou desvirtuar suas primícias;
que insistiu em fazê-lo torto;
em ensiná-lo a andar para os lados;
quando não precisava ser manco

hoje, o ser coitado ali está,
com barba, dentes e bigode:
mas quando chora,
ah! como chora!

19.5.15

CÉREBRO

ando pelo meio-fio dos nervos
tropeço no cerebelo
e o córtex me solta um xingo

sento em meio ao infinito
dos impulsos elétricos
que nunca deixam
nem me deixarão dormir

os lobos que não uivam, ah,
deixaram aqui um pouco de merda
da comida que comeram

sempre fui ocupado com minha vida
na intensidade
paralelamente à realidade

se eu vivo de verdade
vivo de pouquinho:

como vou pelo meu caminho
se no meio de tanto neurônio
fico sozinho?

22.3.15

O BAÚ

um dia,
simplesmente,
não precisei mais:

não precisei das mãos que um dia me aplaudiram.
não precisei dos abraços que pedi.
não precisei da ajuda que obrigatoriamente me davam.
não precisei das madrugadas a implorar alguém.
não precisei do sexo fútil e inútil.
não precisei da oração alheia.

eu era um. e ali eu observava as pessoas,
todas tímidas,
ao redor de mim. era estranho
ver naquela situação.
eu era um risco, um traço errado,
algo sobrando no mundo dos vivos...

meu riso imundo ecoava nos olhos deles,
piedosos,
como se também eles sentissem orgasmo e dor.
era eu contra eles:
eu permanecia com os olhos fechados.

eu estava morto,
e não precisava mais de nada.

16.3.15

MEDIANO

bom dia para você que acordou revigorado
para mais um dia de trabalho

bom dia para você que tem café
e pode escolher o que comer

bom dia para você que toma banho
e escolhe o perfume do dia:
francês ou nacional

bom dia para você que pega trânsito
e ônibus lotado

bom dia para você que pega fila
e conversa com todos no banco

bom dia para você que reclama
para você que pensa
que a culpa é sempre dos outros

tem gente que não acorda revigorada
porque não tem cama

tem gente que não tem café
e nem o que comer

tem gente que não toma banho
e não é por moda europeia
(eles não têm água)

tem gente que trabalha a pé
porque escolhe: o busão ou o café

tem gente que não pega fila no banco
porque trabalha em regime escravo

tem gente que louvaria a deus
se tivesse a vida que você tem:
mas insiste em maldizer

9.3.15

CERTO

não sou feito de imagens:

o que me tange é a palavra...

sem opção de escolha
sem chance de retorno
sem barco salva-vidas

sem raciocínio
sem roupa
sem nada

6.3.15

COMO CHEGA O AMOR

nunca estive preparado para o amor.
pensava que fosse doce união de almas
ou mágico momento
onde meus olhos cruzariam outro olhar.
imaginava em devaneios que o amor seria
amar somente um reflexo de mim mesmo.
como se a essência da troca de duas almas
dependesse apenas de uma.
nunca consegui invocar o amor.
nem com músicas ou poemas
ou arrancando pétalas das flores.
ousei esquecer-me:
abandonei-me ao cais.
e então senti as pernas tremer.
senti os olhos chorarem
e os lábios sorrirem.
o amor havia chegado
e eu sequer havia percebido.

3.3.15

PONTO DE DIÓGENES

"Eu procuro um homem"
(Diógenes de Sínope, 413-323 a.e.c)

nunca encontrei homem algum
que conseguisse encarar-me os olhos
e não tivesse vergonha para assumir
sua força

nunca encontrei homem algum
que fosse capaz de ver-me humano
que fosse capaz de ser também homem
quando outro homem lhe ciscasse o terreno

nunca encontrei homem algum
que fosse capaz de afogar minha sede
de matar minha fome
de viver com meu juízo

nunca encontrei homem algum
que honrasse sua aliança!
e nunca encontrei homem algum
que não pensasse de sua pança!

os homens que encontrei
sempre flertaram com o fracasso:
sempre tontos, sempre cegos,
sempre irremediavelmente

homens

BENTO (uma oração a um homem comum)

tua jaqueta não nega:
o frio de monte cassino
não é tão gelado
quanto o frio da alma

teus olhos fechados não mentem:
a verdade é de poucos, e a mentira
não é tão convincente
quanto o sofrimento

tua mão direita não luta:
o cálice embebido em veneno
não sufoca tanto
quanto o abraço improvisado

teu semblante não muda:
canção ao longe, cigarro ao lado
não se importando
quando o sol irá surgir

teu peito não esconde:
o ego aguarda o gozo e a palma

mas não cedes ao grito do inimigo

te submerges num mar de calma

2.3.15

MÃOS

minha mão direita
faz com a esquerda
conciliação:

uma aliança
põe uma mão
na outra mão.

mas qual a necessidade
da aliança de uma mão
com outra mão?

não é inútil
juntar-se ao caminho
que está na contramão?

mexem na minha cabeça
com dez dedos diferentes
que apertam o coração...

não revelam pensamentos
nem demonstram suas ações:
tudo é maquinação!

e assim passa a existência
e assim passa a história
neste corpo sem função:

é a minha mão direita
com a minha mão esquerda
fazendo conciliação...

FADE TO BLACK (bomba-relógio)

dez. o enorme preço das coisas
confunde meu coração
de olhos jovens e hábito senil.
enquanto vejo a marcha alheia,
corro para dentro do meu próprio interior.
há muitas palavras para nada dizer,
enquanto o significado exato me atinge em cheio.
percebo-me um milhão em um só.
desejo correr pelas avenidas
quando me torno

nove. já são onze da noite
e o clima vai se deitar mais frio.
não tenho acalanto. meu repouso
é dormir nos braços dos que me maltratam.
sinto a dor de quem me beija
e o amor de quem me escarra.
pareço apenas dois
na multidão de fantoches que me esperam.
quando me dou conta já sou

oito. o espaço é pequeno,
as palavras muitas,
e o suor gelado. espera no hospital.
o branco traz uma espécie de medo,
algo obscuro demais para ser tão alvo assim.
como se as folhas vazias apontassem minha insignifi

sete. três da manhã.
os vagabundos dominam a calçada,
as meninas entram pelo banco do passageiro.
o ar tem o cheiro
da pobre dama da noite que se abriu.
esqueci que não sou mais criança
quando o relógio bate

seis. barulho no metrô.
pessoas indo e voltando.
o desconhecido me vira a cara.
o pescoço manchado de sangue.
a distância entre o ódio e o soco.
os meninos riem.

cinco. a cidade não para
enquanto o peito escancara
essa voz
que no peito estala.
o mundo compõe a rima.

quatro. o que está além?
o que vem depois do fim?
"pai? você pode me ouvir?
pai? você está aí?"

três. manchete de jornal:
"chacina de deuses no monte olimpo.
ainda se procuram os culpados."

dois. estou preso neste quarto bagunçado
quando sinto que sou

UM!!! quem sou eu, afinal?

27.1.15

JAZZ

cada nota é um fim em si mesma:
é traço, risco;
ponte que atravessa
e vê o rio passando
levando tudo consigo
correndo
indo embora

26.1.15

PANACEIA

          a charles bukowski

poesia é o único remédio plausível
quando o seu emprego é uma bosta
e você espera que o calor passe

poesia é a solução imaginável
no momento de perder quem se ama
ou quando você ama quem não te ama

poesia é o fio de ariadne
no labirinto ridículo do espaço
nas horas à espera do exame
no trânsito caótico da cidade
no sangue quente do desejo

poesia é o máximo do mínimo
a otimização da miséria da vida
o recorte, o ímpar, o difícil:
o vivo

poesia é o choro contido
o orgasmo não dito e a festa surpresa
poesia não é discurso escroto, sem sentido
é as malas na porta e as cartas na mesa

poesia vai além do gênero literário
é o único posto de emprego
que qualquer pessoa pode assumir
sem de fato exercê-lo

poesia vai além do discurso

poesia é rio que
simplesmente

segue seu curso

22.1.15

DOS DIFÍCEIS

impossível fazer poesia
sem contemplar
sem ver as coisas
pelo avesso

condenamo-nos a recortar fatos
notícias
súmulas condensadas:
palavras

poesia morreu
no dia que disseram
que o difícil era difícil
que o fácil era rápido
(de engolir)

não aceito. o fácil é o óbvio.
e o difícil?

ah

               este transcende

19.1.15

POEMAS REPUBLICANOS (o gosto pela vida)

nestas ruas tão desertas
só pensei na coisa certa
de amar e de sentir

quero minha realidade
da mais pura mocidade
onde sempre residi

vou pedir minha coberta

só no dia em que partir

* * *

se eu contasse o que vi, ai!
não diria nem meu pai
que a mim é mais vivido

junto com um rapazote
estava junto um sacerdote
com o ar esbaforido

eu já não entendo mais

- este mundo está perdido!

PARTE

andando pelo caminho
encontrei dois olhos
que me entenderam como sou

(o tempo nos afastou)

- alguém viu
  meu pedaço por aí?

15.1.15

ESMERALDA

osasco:
               já tive asco

presidente altino:
               do tal menino

ceasa:
               que saiu de casa

vila lobos - jaguaré:
               e deu no pé

                              * * *

cidade universitária:
               foi pra gandaia

pinheiros:
               com o mundo inteiro

hebraica - rebouças:
               ver as moças

cidade jardim:
               mas teve fim

                              * * *

vila olímpia:
               na estrada ímpia

berrini:
               citou bernini

morumbi:
               rezou assim

                              * * *

granja julieta:
               "do ataque da besta

santo amaro:
               e do mal o faro

socorro:
               livrai-me, pois morro!"

                              * * *

jurubatuba:
               e abriu a sua tuba¹

primavera-interlagos:
               esquecendo de catar os cacos

grajaú:
               conquistou o céu azul


¹ tubaína, tipo de refrigerante comum no brasil.

14.1.15

INDRISO PENTATÔNICO (ou "the way we were")

luzes na estação.
sombras de alguém:
no meu corpo um vão...

          vivo memoriais
          dormindo; também
          acordado, e mais:

          quando perco a paz

indo pr'a estação...

REENCONTRO

quando o velho pai alçou o filho aos ombros
foi motivo de grande alegria

era como se erguesse
a hóstia
que o redimia de seus erros --

o homem entendeu que seu pai era apenas
alguém

e então pôde contemplar o horizonte entre a luz e o paraíso

nos olhos do velho homem

13.1.15

DOS CANCERIANOS #2

tem o jeito sincero, gosto doce
e ventre fértil

tem o brilho nos olhos, tão único e imensidão
que nunca será capaz de mentir
ou enganar

tem o corpo franzino, desatento
como se este corpo aqui fosse inútil
e o único movimento que o interessasse
fosse o do espírito

tem a vida governada por lembranças
sendo seus segredos memórias ornadas a ouro:
é o modo de manter perto o que ama
sem ser visto
-- por isso é tão humano --

tem tanta humanidade
que não é capaz de viver sozinho

tem tanta vida que não simplesmente existe

sonha

5.1.15

ALDRAMORTE, ALDRAVIDA

[poesia visual* em alemão. tradução:]

sim                  mas
nós                  agora
iremos             vivemos
todos               e
morrer             amamos

*as aldravias são poemas de seis versos, com uma palavra cada. adaptei a tradução, no entanto, para cinco palavras. o original, em alemão, conservou as seis. o título destaca exatamente a contraposição dos temas: se uma aldravia fala de morte, a outra fala de vida -- aldravida.

30.12.14

DE LA LIMOSNA (da esmola)

não ouses suprir tuas carências:
serás condenado eternamente
a saciar-te

se for impossível a vida feliz
chore
(mas continue vivendo)

não aceite as moedas
de quem te oferece carinho fácil
de quem diz que te ama
porque quer teu ódio

se não der para viver sorrindo
viva assim mesmo

doendo

29.12.14

MESTRE

a um josé pintado às avessas por drummond

                         *

meu amor pelo poema eu perderia
se eu encontrasse seu artífice?

     se eu pudesse olhar em seus olhos
          e saber o que sentia?

     se eu pudesse abraçá-lo de repente
          e ouvir o que diria?

     se eu pudesse vê-lo por inteiro
          e não apenas parte do seu dia?

     se eu pudesse beijar suas mãos
          e encontrar um sorriso de alegria?

deixe como está. não perturbe
o que habita no profundo das águas

(o amor só é possível
porque amamos o que não vemos)